quarta-feira

Falando de folhas






Escrevi este texto em 2000, para uma revista. Depois disso, ele retornou ao limbo do meu HD e ficaria mofando até ser perdido para sempre. Mas eu resolvi atualizar este blog e precisei dele.


FALANDO DE FOLHAS


Flores sempre foram cantadas em prosa e verso, mas eu nuca ouvi um poeta me falar de folhas. Parece que vivemos num mundo onde convém que as flores cresçam e as folhas diminuam. E a natureza, às vezes, faz lembrar as desigualdades da sociedade humana, onde as pessoas querem ser exaltadas a qualquer custo e receber fama, poder e dinheiro, sem se importarem quando outros permanecem desprezados em um segundo plano.

Os que nasceram em posição de flores são sempre cheirados e admirados, mas poucos são os que se importam com as folhas, principalmente com as que estão pisoteadas e ressecadas ao longo do caminho. Mas Deus pensa diferente.

Um dia eu procurei pelas folhas na Bíblia e senti uma grande alegria quando constatei que elas também estavam lá. Não eram descritas tão belas como as flores dos campos, nem tão desejadas como os frutos da boa árvore, mas estavam lá. Não faziam dupla com as aves do céu (pois tal honra fora concedida apenas aos lírios dos campos), mas ainda assim trabalhavam exaustivamente: cobrindo a nudez da humanidade expulsa do Éden ou nos ramos alegres que se sacudiam ao som das vozes que gritavam hosanas ao Rei. Ora exuberantes na árvore plantada junto aos ribeiros de águas, ora secas de descontentamento com a figueira estéril. Mesmo assim, imprescindíveis no comprimento dos propósitos de Deus.

Talvez seja por isso que o Senhor Jesus, quando falou que era a videira verdadeira, não mencionou flores presas a seu corpo, apenas folhas.

Subitamente, eu entendi o grande mistério das folhas: elas vieram para servir...

Folhas quase nunca são colhidas e pouco se destacam nos buquês das festas, mas nutrem de seiva os ramos que brotam do fundo da terra. Folhas são bravas e fortes. Agüentam o vento e a tempestade... Enquanto as flores murcham e se despetalam no calor, elas olham corajosas para o sol e dele tiram a energia vital. E, mesmo em sua verde e quase imperceptível atuação, fazem o planeta inteiro respirar.

Por tudo isso eu pensei que seria muito bom se eu tivesse a graça de ser como as folhas, sem amar a glória dos arranjos e coroas, apenas servindo para realçar, manter e alimentar os que de mim precisassem. Apenas servindo verdemente serena, até que o Senhor me colhesse para ornamentar os Céus, um jardim eterno onde todos são iguais.

Iolanda Ribeiro

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